segunda-feira, 8 de julho de 2013

Este fim-de-semana morreram mais duas mulheres às mãos daqueles com quem um dia sonharam vir a ser felizes para sempre



“ Nos dias em que o meu marido me batia, o meu filho fechava-se no quarto com os seus livros e escrevia folhas inteiras que espalhava por cima da cama; eu andava de um lado para o outro de encontro a uma coisa e a outra e espreitava pela fechadura da porta para saber se estava tudo bem com ele: quando o meu marido me batia eu tinha de vigiar o comportamento do meu filho e tentar não comprometer o silêncio que ele organizava em torno de si e não romper o seu pensamento.
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Tenho trinta anos e estou casada com um homem vinte anos mais velho. [...] contam-me uqe em criança eu era muito rebelde, talvez por causa da miséria[...] havia um homem bondoso que jogava peixes para a areia longe da vista do mestre e nós crianças corríamos como feras para os apanhar; esse homem é hoje o meu marido, aquele que me bate e eu perdoo-o, porque ele bate é na vida; 
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O meu filho que escreve está agora fechado no quarto e o meu marido bateu-me na noite de Consoada e eu caí da cadeira; a primeira coisa que vi quando olhei para cima foi os olhos do meu filho; o que me faz mais entristecer na minha vida é a forma de olhar desta criança, talvez por isso eu não reajo à violência que sofro, tento fazer luzir a minha felicidade magoada; tento representar o papel de deus: eu sempre vivi contra as paredes; de manhã e à noite sinto-me esmagada entre um dia e outro.
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A estrutura da minha mãe permite-lhe flutuar entre o prazer primário e o sofrimento gratuito. Grande parte do seu sofrimento é um desperdício do sentimento orgulhoso- Quando existem vestígios destrutivos que ameaçam o equilíbrio do lar, ela é a primeira a ser pesada na balança das nossas capacidades emocionais. O amor que sentimos por ela tem a mesma medida das injustiças que a aflige.Por vezes tento compreender o lado errado da sua vida e continuar a escrever como se nada tivesse acontecido.
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Deixem-se ficar em silêncio nas minhas costas, ouçam as vozes que se soltam da minha consciência; o meu pai está sempre zangado; a minha mãe está sempre a sofrer, não consigo escrever outra história [...] quando olho para trás e vejo a curva que a vida faz, sinto que viajei sozinho todo este tempo.
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Conversas Terminais
Fernando Esteves Pinto
Campo de Letras

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